Um artigo assinado por mim foi publicado em alguns jornais, a citar o Estado de Minas, o Jornal de Brasília e O Norte, no qual falo sobre a importância de não se perguntar a uma mulher ou a um casal sobre o bebê que ainda não veio. Leia o texto na íntegra, abaixo:

Todos nós dedicamos o fim e o início de ano para reencontrarmos aqueles que não estão na nossa rotina, mas não são menos importantes. E quando se passa muito tempo longe de alguém, é comum querer saber a vida dele, como está e o que tem feito. Mas é importante ficar atento: algumas perguntas podem ser íntimas demais e completamente inconvenientes.

Para um grupo específico de pessoas, existem questões que podem machucar de forma inimaginável: os casais que ainda não conseguiram ter filhos. Muitos deles já estão em processo de tratamento para infertilidade, mas não se sentem confortáveis para contar sobre isso, por enquanto.

Quando um casal tentante chega a uma festa, ele não deseja falar sobre o momento angustiante que está vivendo. Frases como “quando vem o bebê?”, “já está na hora de arrumar um filho, hein?”, “vocês já se casaram há muito tempo, por que ainda não têm filhos?”, podem ser duras demais. Porque é bem provável que eles já pensem no assunto todos os dias.

Já quando o casal resolve responder que está, sim, tentando uma gravidez, é comum ouvir que “é só relaxar e esquecer que você engravida rapidinho”. Ou então: “aproveite para praticar (acompanhada de risos)”; “eu conheço uma pessoa que utilizou um método infalível”; “qual dos dois tem problema?”; “vocês tentando e eu não querendo de jeito nenhum, odeio crianças”.

Entenda, isso é cruel.

Todos os meses são extremamente duros para o casal que está tentando ter um filho, mas encontra dificuldades. Cada menstruação que desce, cada teste de gravidez negativo e cada exame que aponta infertilidade, são indicados como pequenas derrotas por muitos casais.

A sensação de impotência diante da infertilidade é uma realidade para boa parte dessas pessoas. Ouvir certos comentários e perguntas só alimenta essa sensação.

Saber que seu sistema reprodutivo é incapaz de conceber naturalmente pode ser um baque forte demais para homens e mulheres. E nós, especialistas em Reprodução Assistida, sabemos que existem inúmeras alternativas. É nosso papel apresentá-las da forma mais humana e mais delicada possível. Além disso, o tratamento sempre será individualizado, respeitando a singularidade de cada caso.

Do tratamento hormonal à Fertilização In Vitro, existem inúmeros processos, simples ou complicados. Mas todos acendem chamas de esperança em cada casal que sonha em ter filhos. Ouvir comentários inconvenientes é como tomar banhos de água fria e apagar, aos poucos, a esperança num resultado positivo.

Portanto, se o casal ainda não falou sobre o assunto abertamente é porque, provavelmente, ainda não se sente bem em compartilhar daquele momento. A única coisa a se fazer é deixar a curiosidade de lado.

Sobre Cláudia Navarro

Cláudia Navarro é especialista em reprodução assistida. Graduada em Medicina pela UFMG em 1988, titulou-se mestre e doutora em Medicina (obstetrícia e ginecologia) pela instituição federal. Atualmente, atua na área de reprodução humana, trabalhando principalmente os seguintes temas: infertilidade, reprodução assistida, endocrinologia ginecológica, doação e congelamento de gametas.